Torto Arado – Resenha do premiado livro de Itamar Vieira Jr

Sinopse de Torto Arado

Torto Arado: “Um texto épico e lírico, realista e mágico que revela, para além de sua trama, um poderoso elemento de insubordinação social.”

Em Torto Arado, as irmãs Bibiana e Belonísia são filhas de trabalhadores de uma fazenda no Sertão da Bahia, descendentes de escravos para quem a abolição nunca passou de uma data marcada no calendário.

Intrigadas com uma mala misteriosa sob a cama da avó, pagam o atrevimento de lhe pôr a mão com um acidente que mudará para sempre as suas vidas, tornando-as tão dependentes que uma será até a voz da outra.

Porém, com o avançar dos anos, a proximidade vai desfazer-se com a perspectiva que cada uma tem sobre o que as rodeia: enquanto Belonísia parece satisfeita com o trabalho na fazenda e os encantos do pai, Zeca Chapéu Grande, entre velas, incensos e ladainhas, Bibiana percebe desde cedo a injustiça da servidão que há três décadas é imposta à família e decide lutar pelo direito à terra e a emancipação dos trabalhadores. Para isso, porém, é obrigada a partir, separando-se da irmã.

Numa trama tecida de segredos antigos que têm quase sempre mulheres por protagonistas, e à sombra de desigualdades que se estendem até hoje no Brasil, Torto Arado é um romance polifónico belo e comovente que conta uma história de vida e morte, combate e redenção, de personagens que atravessaram o tempo sem nunca conseguirem sair do anonimato.”

Resenha

Torto arado conta a história de duas irmãs que nasceram no sertão baiano, em uma comunidade de trabalhadores chamada Águas Negras. Elas são irmãs muito ligadas e unidas e depois de um trauma que ocorreu em sua infância, deixará a relação das duas marcadas pelo resto de suas vidas.

Elas seguiram uma trajetória de união e separação, que servirá para contar a história, não apenas delas e sim, da comunidade em que vivem e onde a expressão: torto arado, descreve bem o sentido do modo de vida em sua totalidade, da dita comunidade.

Em torto arado, as pessoas da comunidade são descendentes diretos de escravos e vivem em condições muito difíceis onde, homens e mulheres têm papel definidos de formas diferentes; onde esses moradores não podem, nem mesmo, viver em casas de alvenaria, somente em casas de barro para que não tivessem estabilidade para permanecerem na fazenda.

“De barro, apenas, que também servia para fazer a comida de nossas bonecas de sabugo, e de onde brotava quase tudo que comíamos. Onde enterrávamos os restos do parto e o umbigo dos nascidos. Onde enterrávamos os restos de nossos corpos. Para onde todos desceriam algum dia. Ninguém escaparia.”

Em Torto Arado, as irmãs Bibiana e Belonisia, principais protagonistas do livro de Itamar Vieira Junior, entoam as histórias de outros personagens, humanos e encantados, da trama, onde podemos ver as contradições e injustiças naquele modo de vida.

O tempo em que ocorre a história fictícia de torto arado, não é dita no livro. O autor Itamar Vieira Jr não nos conta, apenas sugere, pelo modo como tudo acontece, que não é nos tempos atuais. Pois, os conflitos tratados na trama refletem um modo de vida de um tempo que parece ter sido em outra época, há muitos e muitos anos e, ao mesmo tempo, há algo de atual, infelizmente.

Afinal, não faz muito tempo em que saiu mais uma matéria no G1 sobre uma nova “lista suja do trabalho escravo” no nosso país.

Torto Arado representa um cenário permanente de um Estado Brasileiro obsoleto, cheio de mazelas e desigualdades. Um cenário típico do sertão brasileiro, suas relações sociais e culturais sendo representadas de forma muito crua; o latifúndio e o trabalho servil; um povo marcado pela seca e pela violência; as crenças e religiosidades evidenciadas.

As vozes femininas de torto arado possuem a força da resistência e ligações com seus ancestrais que evocam o sentimento de luta, de conflitos e reconciliações.

“Se o ar não se movimenta, não tem vento, se a gente não se movimenta, não tem vida”

O custo da resistência, o custo da ousadia em pensar que se tem direito, de saber que se tem o direito e ao exigi-lo, ele é negado e o vermelho se torna a cor da terra.

“Fui tomada por uma profunda tristeza ao ver aquelas duas vidas desamparadas diante do que lhes haviam feito. Vi tanta crueldade ao longo do tempo, e mesmo calejada me comovo ao ver os homens derramando sangue para destruir sonhos.”

Torto arado é uma obra incrível, que nos deixa algumas mensagens importantes e uma delas, a que quero evidenciar aqui, é de que a luta não acabou. Apesar de Torto Arado ser uma obra de ficção, seu enredo retrata algo que nossos antepassados já vivenciaram, não importa de que lado eles estavam, mas estavam lá, de verdade.

E o reflexo disso ainda nos dias atuais está aí, por vários cantos do nosso país.

“O medo atravessou o tempo e fez parte de nossa história desde sempre. (…) Era o medo de quem foi arrancado do seu chão. Medo de não resistir à travessia por mar e terra. Medo dos castigos, dos trabalhos, do sol escaldante, dos espíritos daquela gente. Medo de andar, medo de desagradar, medo de existir. Medo de que não gostassem de você, do que fazia, que não gostassem do seu cheiro, do seu cabelo, de sua cor. Que não gostassem de seus filhos, das cantigas, da nossa irmandade. Aonde quer que fôssemos, encontrávamos um parente, nunca estávamos sós. Quando não éramos parentes, nos tornamos parentes. Foi a nossa valência poder se adaptar, poder construir essa irmandade, mesmo sendo alvos da vigilância dos que queriam nos enfraquecer.”

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Torto arado é uma obra nacional admirável e eu tenho tanto orgulho dela e desse autor que a compôs.  Em 2022, Torto arado começa no Ranking Geral de livro de ficção mais vendido do PublishNews. Na Amazon, ele começou o ano ocupando o segundo lugar de livros mais vendidos na plataforma dentre todos os gêneros. É sucesso demais e, merecido! Parabéns ao autor Itamar Vieira Jr.

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