conto — caída no precipício — por Adrielia

           

Conto: CAÍDA NO PRECIPÍCIO

Autora: Adrielia

Caída em um precipício completamente apaixonada por ele. É assim que este coração aqui dentro do meu peito se encontra. Regozijo-me de cada parte do seu corpo e a cada palavra dita ao som de sua voz. Tudo nele me agrada. 

Antes, não agora.

Agora os seus gritos estão me fazendo trepidar por dentro. Embora eu não entenda o porquê de ele estar assim. Afinal ele sempre me dizia que queria ser livre para estar comigo, para ficar comigo para sempre.

Agora ele está livre. E eu também. Quer dizer, ainda me sinto presa a ele, encarcerada por esse sentimento que me abrasa, me move e me justifica. No entanto, sinto-me livre para viver tudo o que antes eu não podia com ele.

“O amor é uma flor delicada, mas é preciso ter coragem de ir colhê-la à beira de um precipício” — Stendhal dizia.

Eu só fui lá no precipício buscar a minha flor.

            Vejo-o enquanto está aos prantos, agarrado à sua mãe que me dirige um olhar mortal. O delegado volta a me perguntar o que eu fiz. Eu não consigo responder nada. Só consigo prestar atenção nele, que continua desesperado, ali, a poucos metros de mim.

Vê-lo nesse estado é perturbador e meu coração dispara mais a cada soluço que ele dá e, neste instante, enquanto ele sai do colo da mãe e vem em minha direção, sinto-me com borboletas no estômago.

Ele entende.

Seus olhos estão inchados, vermelhos e molhados. Sua boca de lábios tão macios está entreaberta, como em um convite a ser atendido: explore-me.

Ah, minha nossa, como ele é lindo e, como eu o amo.

            — Onde você colocou o corpo dela, Chloe? O que você fez com o corpo dela? — ele disparou, voltando a contorcer seu rosto em mais uma crise de choro, desesperado e descontrolado.

Borboletas? Voltem aqui borboletinhas… 

As borboletas se foram. A sensação que acometeu o meu corpo foi de formigamento que subiu dos meus calcanhares até a minha garganta formando um nó duro, amargo que nem fel, que me fez perceber que eu havia me enganado.

Mais uma vez.

A sensação de que nada faz sentido é algo extremamente triste, doloroso e cruel — principalmente se você já fez muito ou tudo. No entanto, pode ser também, um desafogo.

A ficha caiu e, em vez de ficar descontrolada, fiquei serena e com plena consciência do que estava acontecendo. As perguntas ecoando na minha cabeça.

 “Onde eu coloquei o corpo dela? O que eu fiz com o corpo dela?”

            Ontem bem cedinho saí de casa, como faço todos os dias, para entregar os cookies que produzo para vender na padaria do senhor Nelson. Geralmente naquele horário a rua está deserta.

A brisa da alvorada estava fresquinha e me fez sentir um prazer bem-vindo que acalentava minha alma como um abraço, acarinhando meu corpo que o recebia com fervor.

Talvez, se não com certeza, aquele fosse o único carinho genuíno que eu recebera na vida.

Antes de chegar na padaria fui empurrada com violência e, a minha cesta de cookies foi parar no chão espalhando-os pela terra avermelhada. Aquela rua ainda não é pavimentada. No inverno a lama vermelha faz crostas nos calçados e nas canelas de todos que se arriscam passar por ela e nas outras estações do ano, a poeira dança em forma de redemoinhos e se embrenha por entre portas e janelas que estiverem dando sopa.

            Quando me equilibrei e olhei para a pessoa que tinha me empurrado dei de cara com ela, a noiva dele. Ela estava com uma faca de cozinha em uma das mãos, vestia um vestido florido que cobria os ombros e joelhos. Descalça, ela se movia em minha volta com a faca na mão e um olhar desafiador em minha direção. Sem conseguir tirar os olhos dela, eu tentei me afastar andando para trás. Uma sensação de Déjà vu percorreu o meu corpo como se tivesse mais alguém ali, além dela e eu, porém, alguém invisível aos olhos.

            Então, pedi a Deus que passasse alguém ali, em carne e osso, para impedir o que estava prestes a acontecer com aquela pobre garota. Será que ela acreditava mesmo que tinha alguma chance de me ferir fisicamente com aquela faca? Comecei a rir da sua inocência. Como ele poderia pensar em se casar com aquela garota tão inocente e burra? 

            A minha gargalhada tornou-se escandalosa como sempre era, ou como sempre se tornava quando eu sentia que não estava só. Era uma força invisível que fazia meus poros se arrepiarem e, a partir do momento em que a sentia, todos os meus pensamentos mais perversos se manifestavam. Vi os olhos da noivinha se apertaram e se encheram de lágrimas ao perceber que eu não me acovardaria. Ela percebeu que não era páreo para mim. E ela não era mesmo, nem na vida dele e muito menos em uma briga.

            — Ele me ama. — Disparei.

            — Ele vai se casar comigo, sua vadia — ela disse tentando parecer firme, mas sua insegurança exalava um cheiro tentador e eu tomei a decisão: ele não se casaria com ela.

            Antes de garantir que isso acontecesse, um rapaz passou por nós em uma bicicleta — pensei que pudesse ser a resposta ao meu pedido à Deus para que tivesse piedade da garota —, no entanto, ele seguiu seu rumo sem nem mesmo olhar para trás.

Bem, já que ele não parou é porque tem que ser. Aproximei-me mais da garota enquanto ela tremia que nem vara verde e tomei a faca de sua mão e em um golpe só, enfiei-a em seu coração. Agarrada com suas duas mãos em meus ombros ela soluçou com seus olhinhos pequenos arregalados enquanto eu retirava a faca e, com cada vez mais força, colocava de novo e de novo.

            Ela era bem magrinha e baixinha então, não foi tão difícil arrastar seu corpo até a minha casa que ficava em um sobrado da casa do senhor Nelson, meu vizinho, dono da padaria. O meu quintal, dá direto para o dele e o que os separa é só um portão velho de metal que ficava trancado pelo lado oposto ao meu. Lá, ele tem um poço profundo de onde ele tira água para regar sua horta e abastecer o tanque onde cria peixes, a quem se dedica depois da padaria, após ter ficado viúvo e não ter nenhum dos filhos por perto.

            Deixei o corpo da morta enrolado em uma manta, a qual eu não tinha muito apego, troquei de roupa e caminhei a passos largos voltando à padaria. Encontrei o senhor Nelson e contei que tinha posto a perder toda a fornada de cookies do dia. Mas estava ali para lhe dar uma satisfação e me oferecer para limpar aquele portão velho que tinha nos nossos quintais já que fazia, por volta de seis meses que eu não o limpava. Ele me deu as chaves.

            O corpo da noivinha está lá, no fundo do poço. Antes de jogá-lo, eu o amarrei a algumas peças de aço que encontrei pelas quinquilharias do senhor Nelson. Era peso suficiente para impedir que o corpo boiasse. Então, voltei a fazer meus afazeres do dia tranquilamente, com uma sensação de alívio. Ele, enfim, estava livre para viver comigo o nosso amor. Ele ficaria tão feliz quando pudéssemos ficar juntos sem precisar estar às escondidas. Não que nossos encontros às escondidas fossem ruins, não. Eram maravilhosos.

Acontecia, religiosamente, três vezes por semana. Sempre na minha casa, depois das 23Hs. Ele ia até mim e nos amávamos apaixonadamente. Ouvir as suas juras de amor me deixava certa de que éramos almas gêmeas e que se não estávamos juntos oficialmente, era porque a vida era cruel. Ele era uma vítima dos pais que queriam casá-lo com uma mulher de estirpe, que lhe oferecesse influência social, como se fosse possível uma coisa dessas nesse mundo medíocre onde vivemos.

Mas, mesmo assim, eu não poderia dar nem mesmo a possibilidade disso a ele: viúva de um marido e abandonada por outro — como pensavam — não possuo recursos nem nome de valor para isso. Além de ele ser um tanto mais jovem do que eu, o que causaria espanto e geraria muitos julgamentos dessa sociedade esterqueira.

            O que nós tínhamos era o mais puro sentimento de amor. E saber que tínhamos isso me fazia, até então, acreditar que tudo teria valido a pena. O que tínhamos era para valer mais que qualquer coisa!

Quando estou com ele aquela presença sombria não se aproxima, ela apenas me olha de longe. Eu sei que ela está lá, mas de lá ela não passa, assim como fazia com meus outros dois maridos até eu entregá-los a ela.

            Ele é, era, a luz que me tirou da escuridão. Na última vez que nos vimos, fizemos amor tão demoradamente que foi muito mais difícil do que das outras vezes nos separarmos. Ele estava muito frustrado quando começou a falar sobre como estavam as coisas em casa. Sentado depois da transa, fumando um cigarro, ele gesticulava as mãos enquanto dizia o quanto era sufocante estar com ela. Ter que participar de jantares e reuniões com o pai e o futuro sogro para discutir compra de terras e construções na cidade.

            Eu o observava e pensava em como as coisas poderiam ser se ele não tivesse que fazer essas coisas. Se ele não estivesse noivo. Se ele fosse meu em mais horas dos dias por todos os dias.

            — Você sabe que não há nada que eu deseje mais nesse mundo do que isso, Chloe. Você é o amor da minha vida e se eu pudesse, ficaria com você aqui para sempre. Ou fugiríamos para algum lugar onde pudéssemos ser felizes sem ninguém para nos atazanar.

            Meu peito se inflava de alegria ao ouvir o que ele dizia. Então, tudo o que fiz foi para o nosso bem, para a nossa felicidade. Por isso é mais difícil entender por que ele está tão devastado com a perda da noiva.

            Agora, olhando para ele daqui de onde estou, sei o porquê: ele é um mentiroso. Depois da minha prova de amor, do que eu arrisquei para ficarmos livres, agora eu sei.

Se eu não contar eles não vão descobrir, não aquele delegado inepto. Já reviraram a minha casa e, além do testemunho do motociclista que afirma ter visto eu e a noivinha naquela manhã, eles não têm nenhuma prova.

Por um breve momento, pensei em falar a verdade, mas no instante em que abri a boca para proferir as palavras senti que não deveria. Eles não mereciam. Eram todos mentirosos e hipócritas. E, eu não estava sozinha. Por onde eu fosse, eu sabia que não estaria sozinha. Então, seguirei em queda nesse precipício onde o melhor de mim vai ficando para trás a cada centímetro que eu desço.

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Conto —Caída no precipício — Por Adrielia